Amor nunca contado
6 DE MARÇO DE 2017 · SOMENTE EU
Seu olhar já estava sem orgulho e com pouco brilho, seu amor, já não olhava numa mesma direção, sua agonia só aumentava. Ela sabia que não era assim que as nuvens paravam no céu. O céu também não gostava daquelas nuvens cinzentas. Sabia que não agüentaria muito mais, tanta distância, ouvir aquela orquestra desafinada que parecia que o maestro havia morrido ou partido sem avisar a ninguém. O príncipe não veio montado a cavalo, o cavalo não era branco, já não havia nenhum cavalo. A música já não tocava mais. Era como se estivesse surda. Não sabia se havia sobrado alguma coisa dela pra sí mesma, gritava o som do coração com a agonia de uma alma desprotegida. Desprotegida pelo sorriso de um maestro, por um príncipe que saiu da imaginação e já não existia. Perdeu a pedrinha da amarelinha quando seus sonhos de infância lhe deixaram..
No escuro da sua razão, queria uma fresta de luz para sair como se sai por uma janela. Nenhum som. Sem encontrar a maçaneta, um feixe de luz ou a pedra que havia perdido, se jogou para acordar de um sonho que começara a ficar ruim. Porque nos sonhos, nem sempre conseguimos fazer o que queremos.
Já não escutava mais nada, porém não parava mais de cantar a partir dali. Queria uma página em branco para voltar a desenhar seu futuro. Queria uma nova estrada numa nova direção e para longe. Queria voltar a sonhar os tempos da amarelinha, os tempos que não havia ponteiro no relógio, que criança não tinha hora pra dormir. Que gato preto e caolho poderiam ser sinônimos de sorte grande..Que o amor dos contos de fada eram realizados e os finais poderiam sim ser felizes. Tempos que não passavam, que o "pra sempre nunca acabaria". Se convenceu então que o pra sempre, uma hora acaba..
A cantoria calada da orquestra desafinada já não a incomodara mais tanto. A música voltaria a ser tocada por outra filarmônica em notas que só ela poderia ouvir. O ritmo seria criado em tempos de carnaval, com notas mais sorridentes, harmônicas..
O maestro voltou a cavalo com uma pedrinha guardada no bolso. Protegida. Trazia com ele uma espécie de amor nunca contado... Mas o amor nunca contado não é o amor que não acontece, o amor dos romances onde o final é sempre trágico? O amor nunca contado é o amor platônico. O amor impossível. Aquele que nunca se realiza pois o medo pelas expectativas criadas impede a realidade. O medo do fracasso que impede a tentativa. O medo da distância. O medo da incerteza do futuro. Ele trouxe esse amor, nunca contado, platônico, impossível e trágico, protegido de todos. O amor machucado de um coração atordoado, machucado pela ausência, pela falta de cuidado.. Todo amor que não acontece é por sí trágico. Amor sem interesse.
O maestro nunca mais seria o mesmo. Jamais encontraria música como aquela que escutara. Andava pelas ruas triste e com a pedra protegida em seu bolso. Não se separava dela por nada. Pensava no amor de verdade, em viver cada segundo como nunca mais, em como suportaria viver longe de uma parte dele, em como caminharia dali em diante sozinho e despedaçado. Se fosse um peixe, o mundo seria um aquário, e ele nadaria para chegar em nenhum lugar dali em diante.. O tempo passava e ele ia se desfazendo nas memórias. Não havia mais a correnteza, nem o vento para levá-lo a algum lugar. A vela foi perdida.. Tudo não seria mais lembrado... Os seus planos foram rasgados, lhe foi dito que outro plano para a sua vida seria o perfeito para ele. O maestro ainda sentia aquele amor do passado e pensava que um dia devolveria aquela pedra para que os sonhos voltassem a serem sonhados, para que o príncipe se materializasse novamente numa vida real.. Que uma princesa pudesse voltar a sonhar. O maestro tinha boa memória e só poderia contar com ela a partir dali...